Morreu António Zacarias, jornalista que fez da defesa da liberdade de imprensa uma causa – O País
Morreu esta sexta-feira, no Hospital Provincial de Inhambane, vítima de doença, o jornalista António Zacarias, uma das vozes que durante anos marcaram o jornalismo feito a partir da província de Inhambane. Correspondente do Magazine Independente, Zacarias construiu uma trajectória particularmente ligada à denúncia de injustiças sociais, à fiscalização do poder e à defesa da liberdade de imprensa, mantendo-se interventivo mesmo quando o exercício da profissão o colocou perante ameaças e intimidações.
Durante vários anos, António Zacarias acompanhou de perto a realidade política, social e económica de Inhambane, levando para as páginas do Magazine Independente assuntos que afectavam directamente as comunidades e dando espaço a problemas que nem sempre encontravam lugar no debate público.
Foi, sobretudo, um jornalista que não se limitava aos acontecimentos oficiais. A governação local, as condições de vida das populações, as alegadas irregularidades envolvendo instituições públicas e os problemas enfrentados pelas comunidades estiveram entre os assuntos que marcaram o seu trabalho. Essa postura acabaria também por fazer de Zacarias um dos nomes associados à luta pela liberdade de imprensa em Inhambane.
Um relatório sobre o Estado da Liberdade de Imprensa e de Expressão em Moçambique documenta, por exemplo, que o jornalista recebeu ameaças de morte por telefone depois da publicação de matérias sobre alegados casos de corrupção no Município da Maxixe. O episódio tornou-se um dos exemplos das pressões enfrentadas por profissionais da comunicação social no exercício da fiscalização do poder.
Anos depois, Zacarias voltaria a enfrentar directamente essas dificuldades. Em 2022, enquanto cobria um conflito envolvendo a Polícia Municipal e vendedores informais nas proximidades do mercado Tsuwula, na Maxixe, agentes policiais tentaram retirar-lhe o telefone com que registava os acontecimentos e confiscaram temporariamente a sua carteira profissional. O jornalista recusou entregar o equipamento e o caso acabaria denunciado publicamente pelo MISA Moçambique como uma limitação ao exercício da actividade jornalística.
Mais do que episódios isolados, estes acontecimentos ajudam a retratar uma carreira construída num contexto em que fazer jornalismo local significava, muitas vezes, estar próximo dos problemas e das pessoas que raramente conseguiam fazer ouvir a sua voz.
Mesmo nos últimos anos, António Zacarias manteve essa intervenção pública. Em Dezembro de 2024, pronunciou-se sobre as reivindicações de jovens das zonas produtoras de gás de Inhassoro e Govuro, defendendo maior investimento em iniciativas económicas e mais oportunidades para as populações que vivem nos territórios onde a riqueza é extraída.
Era uma preocupação que atravessava boa parte da sua trajectória, na qual sempre procurava colocar no centro do debate aqueles que normalmente permaneciam à margem dele.
A morte de António Zacarias representa, por isso, a perda de um profissional cuja história se confunde com parte da própria caminhada recente do jornalismo em Inhambane. Um jornalismo feito longe das grandes redacções nacionais, próximo das comunidades e, muitas vezes, exercido em condições difíceis.
Ao longo da carreira, Zacarias conheceu a pressão que pode acompanhar quem questiona o poder, mas continuou a fazer da palavra e da reportagem instrumentos para denunciar injustiças, amplificar preocupações das comunidades e defender o direito de informar.
António Zacarias morreu esta sexta-feira, no Hospital Provincial de Inhambane, vítima de doença. Fica uma trajectória marcada pelo jornalismo de proximidade, pela defesa das causas sociais e, sobretudo, pela convicção de que a liberdade de imprensa só tem verdadeiro significado quando também serve para dar voz a quem dificilmente consegue ser ouvido.