Transformação do carvão pode reforçar a segurança energética – O País
A Vulcan defende que Moçambique aproveite o carvão mineral e os resíduos da actividade mineira para produzir electricidade e impulsionar a industrialização. A mineradora considera que os preços internacionais e os custos de transporte tornam necessário acrescentar valor aos recursos no país.
As oscilações das commodities condicionam a rentabilidade mineira. Depois dos máximos de 2022 e 2023, o carvão desvalorizou, reforçando o debate sobre o processamento local.
Chivambo Mamadhusen, representante das Minas de Moatize, considera que os conflitos internacionais contribuíram para a recuperação da indústria. “Desde que começou a guerra na Ucrânia e, consequentemente, outros conflitos, a indústria do carvão melhorou, não só a nível do preço, mas também por questões ambientais. Há uma década, foi instituído internacionalmente que os bancos não podiam financiar projectos ligados ao carvão. Tudo isso concorre para que o carvão seja mais usado, principalmente o coque na indústria do ferro”, afirmou.
Segundo Mamadhusen, a empresa minera cerca de 25 mil toneladas por mês para o mercado interno.
Actualmente, a tonelada de carvão metalúrgico custa menos de 270 dólares, abaixo dos mais de 400 dólares alcançados em 2022 e 2023. O carvão térmico também recuou dos 150 a 160 dólares registados em 2022.
Mukesh Kumar, chefe executivo da Vulcan, explicou que os preços começaram a recuperar, mas permanecem distantes dos níveis máximos. “Em 2023, o preço do carvão metalúrgico ultrapassou os 400 dólares. Já o preço do carvão térmico ultrapassou os 150 a 160 dólares em 2022. No ano passado, os preços atingiram os níveis mais baixos, com o carvão metalúrgico a registar uma média de apenas 175 dólares e o carvão térmico a custar pouco mais de 60 dólares”, disse.
O carvão metalúrgico passou a situar-se entre 220 e 250 dólares por tonelada, podendo ultrapassar esse intervalo, enquanto o carvão térmico voltou a superar os 105 a 110 dólares. Kumar admite que os preços poderão recuar quando a situação internacional normalizar.
A Vulcan afirma produzir cerca de 45 milhões de toneladas de carvão por ano em Tete, mas enfrenta dificuldades para escoar toda a produção devido às oscilações do mercado e aos custos logísticos. Defende a transformação local e o aproveitamento dos resíduos para produzir electricidade.
Kumar sustenta que os custos de transporte tornam pouco competitiva a exportação do carvão térmico a partir de algumas zonas de produção. “Temos de desenvolver a nossa industrialização com base nos preços médios, que rondam os 200 dólares para o carvão metalúrgico e os 70 a 75 dólares para o carvão térmico. A exportação do carvão térmico a partir desta região não é viável devido às limitações de infra-estruturas. O transporte de uma tonelada custa entre 50 e 55 dólares. Se tivermos de suportar esse custo, além das despesas de mineração, que margem de lucro nos resta?”, questionou.
A Vulcan propõe aproveitar os resíduos das minas, em vez de depender apenas da venda directa do carvão. A estratégia pretende gerar energia para Moçambique e países da região.
“Pretendemos aproveitar os resíduos gerados nas minas para produzir energia e transformar Moçambique num importante produtor e fornecedor. O objectivo é que o país possa fornecer energia à Zâmbia, ao Zimbabwe, ao Malawi e a outros países da região”, afirmou Kumar.
A Vulcan não rejeita a transição energética, mas defende que a diversificação considere o défice energético nacional. Para Kumar, o carvão continuará importante na produção de ferro e aço e na geração eléctrica, complementado pelas fontes solar, hídrica e eólica.
Kumar alertou que a produção hidroeléctrica está sujeita à variabilidade das chuvas e defendeu uma combinação de fontes para assegurar maior estabilidade.
A transformação local é também apontada como forma de reduzir importações e conquistar mercados externos noutros sectores. Francisco Pegado, director da Cimentos de Moçambique, afirmou que a produção nacional permitiu eliminar cerca de 100 milhões de dólares em importações anuais de clínquer.
“Estamos a exportar cimento para as ilhas Comores e Mayotte. Recentemente, iniciámos igualmente a exportação de clínquer para o Zimbabwe”, declarou Pegado.
Apesar desses avanços, o aumento da produção nacional nem sempre se reflecte de imediato no bolso do consumidor. O preço do saco de cimento em Moçambique continua elevado quando comparado com o de alguns países vizinhos. O desafio é que a produção nacional contribua para preços mais acessíveis.
No sector do carvão, a produção de energia a partir de resíduos mineiros poderá diversificar a actividade económica e acrescentar valor a um recurso cuja exportação depende dos preços internacionais e dos custos de logística. A concretização dessa aposta dependerá da viabilidade dos projectos, do investimento em infra-estruturas e da capacidade de disponibilizar energia a preços competitivos.