Líder da oposição ugandesa Kizza Besigye internado em estado crítico – O País
O líder da oposição ugandesa, Kizza Besigye, de 70 anos, encontra-se internado numa Unidade de Cuidados Intensivos (UCI) em Kampala, em estado considerado crítico, segundo a esposa e fontes médicas.
Besigye, que está sob custódia das autoridades, foi levado na noite de quarta-feira ao Hospital Mulago, depois de ter desmaiado durante uma audiência judicial. A esposa, Winnie Byanyima, directora-executiva da UNAIDS, afirmou que o opositor está inconsciente, não consegue falar e não reage sequer a estímulos dolorosos.
A informação foi confirmada por uma porta-voz do hospital, Gladys Baligonzaki Kajura, que indicou que Besigye deu entrada na unidade na noite anterior e está sob monitorização médica.
O opositor enfrenta acusações de traição, relacionadas com um alegado plano contra o Presidente Yoweri Museveni, que governa o Uganda desde 1986. Durante a audiência, Besigye contestava a decisão de afastar os seus advogados quando perdeu os sentidos.
Um dos seus advogados, Erias Lukwago, antigo presidente da Câmara de Kampala, encontra-se detido, enquanto outra advogada de defesa, Martha Karua, antiga ministra queniana da Justiça, foi impedida de entrar no Uganda.
Besigye, antigo médico pessoal de Museveni, está em conflito com o Governo há mais de 25 anos, desde que entrou para a oposição. Foi detido várias vezes e, em 2024, terá sido sequestrado no vizinho Quénia e posteriormente levado para o Uganda, onde foi inicialmente apresentado perante um tribunal militar. O processo acabou por ser transferido para a justiça civil.
A actual detenção ocorre num contexto de crescente repressão contra figuras da oposição, advogados, jornalistas e organizações da sociedade civil no Uganda.
Na quinta-feira, um tribunal voltou a negar liberdade sob caução a Erias Lukwago, que alegava problemas crónicos de saúde, sobretudo nos pulmões e na coluna. O antigo autarca chegou a comparar a sua detenção prolongada a uma “sentença de morte”.
Besigye já foi hospitalizado pelo menos três vezes desde que foi detido. Em Fevereiro de 2025, foi internado na sequência de uma greve de fome e voltou a receber tratamento médico no início deste ano.
A situação dos opositores ugandeses suscitou também críticas das Nações Unidas. O Alto Comissário da ONU para os Direitos Humanos, Volker Türk, manifestou preocupação com a alegada perseguição crescente contra vozes dissidentes e com a redução do espaço cívico no país.
Segundo Türk, a repressão está associada ao enfraquecimento gradual do Estado de Direito, ao aumento da intervenção militar em instituições civis e à limitação das liberdades fundamentais.
Dados citados pelo organismo das Nações Unidas indicam que, desde a reeleição de Museveni para um sétimo mandato, em Janeiro, pelo menos 50 líderes e apoiantes da oposição, cinco defensores dos direitos humanos e cinco jornalistas terão sido vítimas de violações dos direitos humanos, incluindo desaparecimentos forçados, tortura e maus-tratos.
A ONU refere ainda que pelo menos dez organizações da sociedade civil foram suspensas desde Janeiro, enquanto outras passaram a ser alvo de maior escrutínio e alegado assédio. Alguns órgãos de comunicação social também terão sido obrigados a suspender temporariamente as suas actividades.