Fabrico e venda de armas caseiras em Chigubo alimentam nova onda de caça furtiva em Banhine – O País
O aumento da circulação de caçadores furtivos, associado ao fabrico e comercialização de armas artesanais no distrito de Chigubo, está a alimentar uma nova onda de caça Furtiva no Parque Nacional de Banhine. A administração do parque reforçou a fiscalização nocturna depois de identificar cinco zonas consideradas críticas devido ao aumento de abates ilegais.
Entre a noite desta sexta-feira e a madrugada de sábado, O País acompanhou uma operação nas lagoas de Malhalhene, a mais de 50 quilómetros da base operacional do parque e a mais de 500 quilómetros de Xai-Xai.
A madrugada ainda não tinha terminado quando sinais da presença de caçadores furtivos nas proximidades da lagoa fizeram soar o alerta. Em poucos minutos, o silêncio da mata foi interrompido pela mobilização das equipas de fiscalização.
“Recebemos a informação de que havia presença de caçadores furtivos numa zona distante, a mais de 50 quilómetros da nossa base operacional”, explica Edson Nocodima, fiscal afecto à área de comunicação do Parque Nacional de Banhine.
A equipa de O País integrou uma das três brigadas destacadas para a missão. Depois de duas horas de deslocação, a viatura ficou para trás e os fiscais seguiram a pé por cerca de cinco quilómetros até à área indicada.
Com comunicação permanente por rádio e atenção redobrada aos movimentos na mata, a equipa avançou numa zona remota onde qualquer sinal podia alterar o rumo da operação.
“Quando chegamos a estas zonas temos de ter muito cuidado, porque estamos a entrar num espaço onde não conhecemos a posição do infractor. O objectivo é aproximar-nos sem sermos detectados e garantir a segurança da equipa”, explica Gito Baloi, chefe da Brigada 1 de Fiscalização. Entre os seis fiscais que avançaram pela mata estava Sónia Chaúque, a única mulher da equipa. Há um mês afastada da família, enfrenta longas noites de patrulha para proteger a fauna bravia.
“Não é fácil ficar longe da família, principalmente quando passamos muitos dias no terreno, mas sabemos que o nosso trabalho é importante para garantir a conservação dos animais”, conta a fiscal. Com cinco anos de experiência na conservação, Sónia reconhece os riscos da profissão.
“Existem momentos difíceis, mas quando conseguimos proteger a fauna sentimos que vale a pena o esforço”, acrescenta. Ao lado dela estava Merton Jone, um dos fiscais mais experientes da equipa. Há cerca de uma década percorre os caminhos de Banhine e acompanha os desafios colocados pela caça furtiva.
“Os furtivos estão a procurar novas formas de actuar e nós precisamos também de melhorar os meios para responder a esta realidade”, defende.
Durante a operação, uma pausa estratégica serviu para avaliar os riscos e definir os próximos passos. A informação transmitida pelo rádio voltou a orientar o movimento das equipas para o reconhecimento da zona. Apesar da mobilização dos fiscais, os suspeitos abandonaram a área antes da aproximação da equipa. “É uma fase importante porque permite perceber as condições do terreno e garantir que a equipa possa avançar e regressar em segurança”, explica Gito Baloi.
A operação revelou apenas uma parte de um problema mais amplo. O chefe da Repartição de Protecção e Fiscalização do Parque Nacional de Banhine explica que o aumento dos abates ilegais nas zonas de Macuambe, Malhalhene e Zinhane está associado à actuação de grupos locais envolvidos no fabrico e comercialização de armas de fogo artesanais.
“Temos identificado grupos que estão envolvidos no fabrico e venda de armas artesanais, que acabam por facilitar a actividade dos caçadores furtivos dentro do parque”, afirma Almeida Manjate. Além da caça furtiva, as equipas de fiscalização enfrentam também a exploração ilegal de madeira e a produção de carvão vegetal. As operações resultaram na detenção de indivíduos suspeitos e na recuperação de toros de madeira.
“Nas nossas operações conseguimos deter indivíduos ligados a redes de exploração ilegal de madeira e recuperar toros que estavam a ser retirados de forma clandestina”, acrescenta Almeida Manjate. Para os fiscais, a resposta passa pelo reforço dos meios de trabalho, sobretudo tecnológicos.
“Precisamos de mais investimento, principalmente em tecnologia, porque os grupos também procuram formas de dificultar a nossa detecção e fugir das operações”, refere Merton Jone.
No Parque Nacional de Banhine, a luta contra a caça furtiva continua a acontecer longe dos centros urbanos, durante noites em que fiscais enfrentam os riscos da mata para proteger a fauna bravia.