O poder é efémero – O País
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O poder é efémero – O País

Caro amigo Nelson M,

Recebi a tua missiva em tom profundamente triste e confesso que terminei a leitura mergulhado numa mistura de espanto, inquietação e reflexão. Fiquei surpreendido não apenas pelo conteúdo das tuas palavras, mas sobretudo pela transformação humana que elas revelam. Falavas-me da forma como o Magogolo Katembe, nosso antigo colega da Escola Primária de Tunduru, te tratou recentemente, ignorando laços de amizade, convivência e história partilhada. Imagino a alegria com que fizeste aquela chamada, convencido de que do outro lado encontrarias o mesmo amigo de outrora, alguém com quem partilhaste infância, sonhos e dificuldades. Porém, encontraste frieza, arrogância e distância.

Dizes que o Magogolo Katembe fingiu não te conhecer, que pediu para falares rápido, como se a amizade tivesse prazo de validade e como se o poder lhe tivesse roubado a memória. O mais inquietante, contudo, não é apenas a forma como tratou um velho amigo, mas os relatos que se acumulam à sua volta. Colegas e subordinados descrevem um ambiente de medo, humilhação e autoritarismo. Relatam que trata os subordinados como escravos, confunde o bem público com propriedade privada e atropela normas básicas de convivência institucional, movido pela convicção de que “quem manda é ele”. O nível de arrogância e distanciamento chegou ao ponto de já não conseguir sequer carregar o próprio telemóvel ou as suas pastas, tarefas hoje delegadas aos assistentes, esquecendo-se de que a missão que actualmente exerce é passageira e que, terminada esta função, voltará naturalmente a realizar sozinho actos simples da vida quotidiana.

Talvez o maior problema do poder seja exactamente a ilusão de permanência. Muitos homens chegam a cargos importantes e passam a acreditar que o lugar lhes pertence. Confundem autoridade com superioridade humana. Julgam-se acima das regras, acima das instituições e, em alguns casos, acima da própria dignidade alheia. Esquecem-se de que nenhum cargo é eterno, nenhum gabinete é perpétuo e nenhuma cadeira institucional acompanha alguém para sempre.

A história da humanidade é uma sequência interminável de homens que subiram muito alto e desceram abruptamente. Reis, presidentes, ministros, gestores, directores e comandantes passaram pelos corredores da autoridade acreditando que seriam eternos. Em Moçambique não é diferente. O poder é transitório, as funções passam e os cargos têm prazo, por mais fortes e intocáveis que alguns se sintam no exercício das suas responsabilidades.

Talvez por isso  a cantora Rosália Mboa popularizou a ideia de que “tudo o que voa, de vez em quando vem para baixo para se alimentar”. A mensagem é simples, mas profundamente sábia: por mais alto que alguém voe, jamais deve perder a humildade, o contacto com a realidade e o respeito pelos outros. Quem hoje ocupa posições elevadas deve lembrar-se de que continuará humano amanhã, sujeito às mesmas necessidades, limitações e circunstâncias da vida.

Contudo, o tempo, que é o juiz mais severo da existência humana, acabou por recordar-lhes que o poder não passa de uma circunstância transitória.

Há dirigentes que, ao ascenderem, tornam-se inacessíveis. Mudam o tom de voz, alteram a postura corporal, abandonam antigos amigos e passam a cultivar apenas relações de conveniência. O telefone deixa de ser instrumento de proximidade e transforma-se num filtro de hierarquias. Pessoas que ontem caminhavam lado a lado passam a ser tratadas como incómodos sociais. É como se o cargo produzisse uma espécie de amnésia moral.

O problema é que a arrogância do poder quase sempre produz isolamento. O dirigente que humilha subordinados e despreza amigos cria à sua volta um silêncio artificial. Muitos sorriem por medo, obedecem por conveniência e aplaudem por interesse. Poucos têm coragem de dizer-lhe a verdade. Assim nasce a tragédia de muitos homens poderosos: confundem bajulação com respeito e medo com admiração.

As instituições sofrem profundamente quando os seus líderes acreditam ser donos delas. O Estado não pertence aos dirigentes. As empresas públicas não pertencem aos gestores. Os recursos públicos não pertencem aos ocupantes ocasionais dos cargos. Tudo isso pertence à colectividade. O dirigente é apenas um depositário temporário de confiança institucional. Quando alguém transforma o bem público em extensão do ego pessoal, inicia-se a degradação ética da governação.

Há algo profundamente perigoso na frase “quem manda sou eu”. Essa expressão revela uma visão primitiva do poder, incompatível com qualquer cultura institucional séria. Em sociedades modernas, ninguém manda sozinho. A autoridade existe dentro de regras, limites, procedimentos e responsabilidades. Quando um dirigente acredita que a sua vontade substitui normas e instituições, abre-se espaço para abuso, corrupção e destruição da confiança pública.

O mais curioso é que muitos só compreendem a efemeridade do poder quando já perderam tudo. Enquanto ocupam posições elevadas, acreditam que os carros protocolares, os cumprimentos exagerados e os privilégios fazem parte da sua identidade permanente. Não percebem que boa parte dessas deferências são dirigidas ao cargo e não à pessoa. Quando o poder termina, muitos descobrem uma verdade dolorosa: permaneceram poucos amigos verdadeiros, poucos telefonemas sinceros e quase nenhuma lealdade genuína.

A humildade talvez seja a maior inteligência política e humana que um dirigente pode possuir. O homem humilde compreende que o cargo é transitório e que a dignidade humana deve permanecer intacta independentemente da posição social. Trata com respeito o subordinado, o segurança, o motorista, o funcionário da limpeza e o antigo colega da escola primária porque entende que nenhum ser humano perde valor diante da hierarquia. Trata os assesores como assessores e não como acessórios.

As sociedades também têm responsabilidade neste processo, e a nossa sociedade não está isenta disso. Muitas vezes alimentamos culturas de idolatria do poder, tratando dirigentes como figuras quase sobrenaturais e criando ambientes que favorecem a arrogância, o distanciamento e a perda de humildade no exercício das funções públicas. Precisamos recuperar a cultura institucional segundo a qual o líder é, antes de tudo, servidor do povo e não proprietário do Estado, da instituição ou da organização que circunstancialmente dirige. O respeito pelas funções não deve significar submissão cega à pessoa que ocupa temporariamente o cargo.

Nelson M, talvez a tua tristeza tenha sido também uma oportunidade de aprendizagem. Nem todos conseguem carregar o peso psicológico do poder sem se transformarem. Alguns revelam virtudes; outros revelam fragilidades morais escondidas. O poder não cria carácter; apenas amplifica aquilo que já existia silenciosamente dentro da pessoa.

No fim de tudo, restará apenas a memória que deixamos nas pessoas. Alguns serão lembrados pela arrogância, pelo medo e pela humilhação que espalharam. Outros serão recordados pela capacidade de servir, ouvir, respeitar e inspirar. É esta a verdadeira diferença entre ocupar um cargo e exercer liderança. 0 poder passa mas o carácter permanece na memória colectiva.

Abraço amigo,

Dedé Ndawana.

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