40 anos da tragédia de Mbuzini: entre homenagens e perguntas sem resposta – O País
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40 anos da tragédia de Mbuzini: entre homenagens e perguntas sem resposta – O País

Na última segunda-feira, tive a oportunidade de participar, na qualidade de jornalista ao serviço do Grupo Soico, nas cerimónias do 40.º aniversário da tragédia de Mbuzini, que vitimou mortalmente o primeiro Presidente da República de Moçambique, Samora Machel, e parte da sua comitiva. O desastre ocorreu a 19 de Outubro de 1986, quando o avião presidencial, um Tupolev Tu-134, regressava de Mbala, no norte da Zâmbia, onde o estadista participara numa cimeira regional de chefes de Estado, com destino a Maputo. A aeronave despenhou-se em Mbuzini, na África do Sul.

Estar naquele lugar histórico, diante dos destroços de uma das maiores tragédias da história de Moçambique, foi uma experiência marcante. Quarenta anos depois, o local continua a guardar vestígios daquela noite de domingo, como se o tempo não tivesse sido suficiente para apagar a memória de um acontecimento que marcou profundamente o país e a região.

As cerimónias, dirigidas pelo Presidente da República, foram marcadas por várias manifestações de homenagem, desde as danças tradicionais até aos discursos oficiais. A expressiva presença de pessoas, maioritariamente provenientes daquela localidade sul-africana, permitiu-me compreender melhor a dimensão do legado de Samora Machel e perceber como a sua memória continua viva para além das fronteiras moçambicanas.

No entanto, o que mais me chamou a atenção foram as lágrimas das famílias das vítimas e os testemunhos dos sobreviventes. Quatro décadas depois, persiste a exigência de esclarecimentos sobre as circunstâncias da tragédia. Para as famílias, as investigações continuam sem produzir respostas suficientes, razão pela qual defendem que o caso não deve ser encerrado sem que se esclareçam as dúvidas que ainda subsistem. O tempo passou, mas a dor permanece e as interrogações continuam sem respostas definitivas.

Para além da exigência de justiça e de esclarecimentos, impressionou-me o sentimento de abandono manifestado pelos três sobreviventes que, segundo os relatos apresentados, ainda se encontram vivos. Estes reclamam melhores condições de vida e afirmam não dispor do apoio necessário por parte do Estado moçambicano. Esta realidade levanta uma questão incontornável: que responsabilidade deve o Estado assumir perante aqueles que sobreviveram a uma tragédia que marcou para sempre a história nacional?

Numa cerimónia de tamanha importância histórica e simbólica, chamou-me igualmente a atenção a ausência do Presidente sul-africano, Cyril Ramaphosa, que se fez representar pelo ministro das Relações Internacionais e Cooperação. Ainda assim, o evento contou com a participação de várias delegações dos países da região e de representantes diplomáticos internacionais. A representação ao mais alto nível político da África do Sul poderia ter constituído um sinal adicional da importância atribuída à memória de um acontecimento que também faz parte da história da região.

Perante tudo o que vi e ouvi em Mbuzini, regressei com uma inquietação: será que, em Moçambique, temos plena consciência do peso histórico e da dimensão internacional de Samora Machel? Será que compreendemos verdadeiramente o significado da sua figura para além das nossas fronteiras? Ou estaremos, de alguma forma, a limitar a sua memória às cerimónias oficiais e aos discursos que se repetem a cada aniversário?

As cerimónias de Mbuzini representam muito mais do que uma simples homenagem às vítimas de um desastre aéreo. São um espaço de memória, de reivindicação de justiça e de reflexão sobre o legado de um homem cuja história continua a despertar emoções e interrogações. São também uma oportunidade para avaliar a forma como preservamos a nossa história, honramos aqueles que a marcaram e transmitimos às novas gerações os valores e os ideais que orientaram a luta de um povo.

A questão que fica é esta: que significado atribuímos, aqui em casa, à memória de Samora Machel e às cerimónias que assinalam a tragédia de Mbuzini? Estamos a valorizar devidamente esse legado ou ainda temos muito a fazer para compreender a sua dimensão histórica, política e humana?

Afinal, recordar Samora Machel não deve significar apenas evocar o passado. Deve também representar um compromisso com a verdade, a justiça e a preservação da memória colectiva. Quarenta anos depois, Mbuzini continua a interpelar-nos. A questão é saber se estamos dispostos a escutar o que esse lugar ainda tem para nos dizer.

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