O LIXO TAMBÉM É NOSSO – O País
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O LIXO TAMBÉM É NOSSO – O País

Vi algo anormal a ser normalizado – em Maputo é normal. Ninguém disse nada, não lhe chamou a atenção, nem nada semelhante. Eu mesma fui abduzida por uma grande espiral de silêncio. Parece que, quando aquilo acontece, todos se esquecem do papel moral de educar.

O que aconteceu acontece muito e duvido que vá deixar de acontecer tão brevemente. Se deixar, será um milagre, daqueles que Deus desce para operar pessoalmente, em espírito e em verdade.

Depois de comer e beber, não piscou duas vezes: o passageiro, um a um, jogou-os fora. Primeiro, foram os amendoins torrados, comeu e jogou-os fora. Cometeu duas poluições dentro daquele chapa. Primeiro foi a do ar: o ar amedoinado vinha forte do banco atrás do motorista para trás, algumas cascas até se estacionaram nos cabelos de uma jovem estudante, distraída a folhear os cadernos.

Depois de 30 minutos de poluição atmosférica — porque um bom amendoim é degustado sem pressa — veio a do solo. O sujeito cidadão abriu o vidro da chapa e rapidamente jogou o saquinho transparente, aparentemente inofensivo, vidro fora.

Fiquei por alguns segundos presa à imagem. Imaginei muitos plastiquinhos daqueles estacionados na passagem de água, numa vala de drenagem, coladinhos a outros resíduos, que não deixam a água seguir o seu caminho e, por isso, ela cria os caminhos que levam às inundações. Pensei que aquilo estava a acontecer em dias de chuva, pensei em lhe berrar umas poucas e boas, pensei em lhe dizer o que era óbvio e todos sabíamos: até um menino pequeno sabe que o lugar do lixo é na lata do lixo. Mas, pronto, se eu falar, vou arranjar-me problemas; acho que os outros também ficaram com o mesmo medo.

Pronto, ninguém teve coragem. Seguimos viagem, da Baixa para Albasine. A viagem pode durar 45 minutos ou duas horas, tudo depende do trânsito ou da vontade do cobrador — sobre ele vou escrever outro texto — que não conduz, mas decide que tipo de marcha o carro faz e quando faz.

Ainda nem tinham passado sequer 20 minutos, e o cidadão ia cometer outra poluição. Ficou a parecer que os amendoins lhe deram sede. Sacou uma garrafa de um refrigerante sem nome no mercado, que deve ter comprado quando comprou o saquinho de amendoins. Num único gole, deletou o conteúdo para dentro de si.

Fiquei atenta, como nunca. Não era possível cometer o mesmo erro duas vezes; afinal, errar uma vez é normal, mas duas é burrice.

Não tirei os olhos dele. Desta vez, ele ia ouvir-me, se decidisse despejar aquele recipiente de qualquer maneira. Eu ouvi que o plástico é o pior inimigo dos oceanos. Quando chega lá, os animais confundem-no com alimento e alimentam-se dele. Imaginei o peixe que comemos. Os cientistas disseram que já há plástico no nosso sangue.

Não era para menos: eu ia despejar essas verdades todas na cara dele, para ver se lhe pesava a consciência, um pouco só.

Olhei atenta. Ele ajeitou-se, segurou forte a garrafa e baixou o braço. O alívio que senti naquele momento não é possível descrever.

Descansei cedo demais. Na confiança de quem pensa ter despistado um adversário, abriu sorrateiramente o vidro e, sem muito esforço, largou o conteúdo no meio da estrada. Imagino, até hoje, o trajecto daquela garrafa. Para onde terá ido…

“Afinal, os do município vão limpar o quê?” Justificou-se, como se já soubesse que todos desaprovam a atitude.

Afinal, aquele lixo era do município? Eu penso diferente. O lixo também é nosso. Nós é que o geramos, nós é que o devemos descartar nos lugares apropriados. Esta cidade também nos pertence e, portanto, devemos cuidar dela. Ninguém abriria a janela da sua casa e jogaria uma garrafa ou um saco plástico para o quintal, sem pensar em ir recolhê-lo para a lixeira depois. Assim deve ser na cidade: a cidade é a grande casa de todos, cuidar dela é responsabilidade de todos nós.

Se, individualmente, cada um fizer a sua limpeza, algo simples como juntar o lixo gerado no chapa e descartá-lo no lugar próprio depois de descer, a casa vai estar sempre limpa, não haverá motivos para reclamar. E, se, por outro lado, o município fizer a sua parte, recolher os resíduos com aquela frequência que responde à demanda dos munícipes, não haveria motivos para reclamar de lixeiras a transbordar. Os catadores não são delinquentes, nem pessoas com problemas mentais. Alguém precisa de conversar com eles e explicar-lhes como realizar a sua actividade com urbanidade. Seria mais fácil se houvesse um descarte selectivo de resíduos, mas isso é outra conversa.

A cidade que queremos começa pelo comportamento que adoptamos nas ruas onde vivemos. O município deve cumprir a sua parte, mas não podemos exigir uma cidade de Maputo limpa enquanto continuamos a transformar as suas ruas, valas e canais de drenagem em depósitos de lixo. Cuidar da cidade não é apenas uma obrigação das autoridades. É também um dever de cada munícipe.

Pensei alto, dentro da minha cabeça. É que não é possível! Ele é tão jovem, nem combina com ele, disse para mim, como se a falta de urbanidade tivesse idade e necessidade de combinar com alguém.

Nem eu, nem ninguém disse nada. Cheguei à minha paragem, desci e imaginei o que mais aquele jovem ia jogar para a estrada, nos outros 15 minutos que a viagem ainda ia durar.

Quando virei para enfrentar a longa Rua Nove, dei de cara com uma cena. Tinha pessoas a deixarem sacos no chão. O contentor nem estava cheio. Porquê? Tinha catadores a revirar o lixo, a puxar os sacos para fora do contentor para escolher os melhores resíduos reaproveitáveis.

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