Negação da excelência académica: e se nós aceitássemos? – O País
O maior dos propósitos do ensino é poder transformar pessoas e processos de vida. Quando um professor tem diante de si um aluno que, ouvindo o que lhe é ensinado, pode transformar em algo adicional ou, a partir do que aprendeu, pode melhorar a condição humana, nesse processo, pode-se dizer que o ensino atingiu o maior dos seus patamares: transformar ou inovar.
Mais do que isso, quando, em processo de avaliação, o aluno é capaz de esgrimir argumentos necessários e suficientes para validar ou responder ao que lhe é pedido, esse aluno está apto para atingir níveis mais elevados, que vão além daquele momento de avaliação. Isso é que permite que ele tenha uma nota máxima naquele evento e, na maior parte das vezes, que o professor tenha a confiança de que o aluno construirá, por si ou junto com os outros, novas fontes de saber.
Este introito vem da questão que me tem sido feita sobre a razão de se atribuir ou não uma nota máxima numa tese de doutoramento. Na verdade, por ter sido atribuída essa nota ao Lucílio Manjate, escritor e académico moçambicano. Entre outras questões já mencionadas, devo dizer que, para se ter um trabalho de excelência, o percurso do aluno não se inicia na tese que realiza, que defende ou que escreve; começa antes, através de publicações de diferentes tipos: científicas, estágios académicos; participação e aceitação em congressos e em conferências científicas – nacionais e internacionais; intervenções sociais de partilha de conhecimento, entre outros eventos. Fica aqui referida a importância do saber pesquisar, saber escrever, saber partilhar conhecimento (na academia e fora dela), bem como marcar o passo para a construção de conhecimento sólido, quando arguido. É ao que se tem designado pilares da Universidade: Ensino, Pesquisa e Extensão Universitária. Ou seja, num programa de doutoramento, não se está diante de um aluno, mas de alguém que estuda, que pesquisa, que propõe e defende as suas propostas. A excelência resulta justamente tanto das questões propostas e da forma como elas são apresentadas.
São esses e outros processos aliados a Metodologias de Pesquisa Científica que fazem com que uma tese atinja o estágio de excelência. Feito esse caminho, alinhando-o às cartas de critérios convencionadas pelas universidades ou pela universidade na qual o aluno esteja inserido, ele está apto a produzir conhecimento válido para a sua sociedade.
Fui relutante ao convite para responder a razão de se ter atribuído tal nota em tal tese de doutoramento, porque não percebo a razão do espanto, uma vez que as notas, em Moçambique, variam de zero a vinte. Se assim é, significa que alguém terá uma nota, dentro dessa escala. O que para mim é assombroso é a razão de negarmos a excelência académica a quem tenha feito todo um percurso, durante a tese ou fora dela, que implique que ele atinja os patamares da excelência desejada numa tese.
O meu espanto torna-se preocupação quando adivinho que os insistentes pedidos de explicação são orientados pelo ditado popular segundo o qual santo de casa não faz milagre. Mas, assim mesmo, as entidades que me assediam a dar explicações só confirmam que entre nós, académicos moçambicanos, a excelência é, de facto, um milagre. Isto inclusive poderá explicar porque atingirmos, como sociedade, os níveis de excelência em termos de desenvolvimento socioeconómico será também, um dia, um milagre. Somos caranguejos, como muito bem cantou o Stewart Sukuma, e somos umbiguistas; ou seja, temos a predisposição, a cultura de puxar o tapete do outro ao mesmo tempo que julgamos o nosso tapete o melhor, o limpo.
Mas a academia moçambicana e, de uma forma geral, a sociedade moçambicana não vive apenas esse processo de alteridade cheio de preconceitos e de clichés muito redutores relativamente a nós próprios. Essa negação de nós próprios já vem do berço, das nossas casas, onde o elogio, a premiação são reprimidos porque somos uma sociedade que nasceu da dor, do sofrimento, e não consegue, ainda, dar visibilidade às boas obras; enfim, somos, ainda, uma sociedade profundamente repressora. Vivemos a síndrome do colonizado. O que agrava essa alteridade interna, por vezes, é a relação entre o local e o universal: o que é válido, para nós, é o que vem de fora – o conhecimento que vem de fora, as políticas que vêm de fora, as artes que vêm de fora. Os profissionais que vêm de fora, por aí em diante. Por isso é que facilmente permitimos que outros tomem a dianteira na construção do nosso país. Não nos valorizamos. Não confiamos no nosso trabalho. Os nossos quadros têm reconhecimento internacional que nós próprios negamos. Sinceramente, ainda não percebi as razões, porque os outros, em outros lugares do mundo, vivem orgulhando-se de si próprios e das suas próprias criações.
Se me perguntassem se a tese à qual atribuí nota máxima é transformadora ou se é excelente, voltaria a dizer que sim, porque foi metodologicamente bem construída, baseia-se numa interdisciplinaridade que, em função do contexto moçambicano, sugere um ensino mais humanizante, consentâneo com o que o país e o mundo podem desenvolver no processo de leccionação, a partir da Análise de Discurso. Cruza Antropologia, História, Literatura, Linguística e Didáctica. Aplica a metodologia certa para o problema certo. E se nós aceitássemos? E se aplicássemos, no nosso país, todas ou algumas das propostas feitas nas nossas teses? E se criássemos um outro tipo de diálogo e de intervenção social e científica?
Sara Jona Laisse. Contacto: saralaisse@yahoo.com.br.