UEFA ameaça boicotar competições da FIFA por divergências sobre plano de investimento privado – O País
A UEFA anunciou que poderá boicotar todas as competições organizadas pela FIFA caso avance a proposta do presidente do organismo, Gianni Infantino, de criar uma empresa destinada à gestão dos direitos comerciais dos Campeonatos do Mundo, aberta ao investimento privado.
A decisão foi tomada por unanimidade pelas 55 federações que integram o organismo europeu, entre as quais a Federação Portuguesa de Futebol, durante uma reunião realizada na quinta-feira, 30 de Julho. Em comunicado, a UEFA considera que o Campeonato do Mundo constitui um património colectivo do futebol e não pode ser transformado num activo financeiro ao serviço de investidores privados.
“O Campeonato do Mundo não está à venda”, sublinha o organismo liderado por Aleksander Čeferin, defendendo que a competição foi construída ao longo de gerações por jogadores, selecções nacionais e adeptos de todos os continentes. Para a UEFA, a proposta representa uma grave falha de liderança por parte da FIFA, por ter sido preparada sem uma consulta alargada às federações nacionais.
Os dirigentes europeus afirmam ainda que nenhuma selecção filiada na UEFA participará em competições da FIFA enquanto a proposta se mantiver em discussão, salvo se esta vier a ser integralmente retirada. A posição coloca em risco provas como o Campeonato do Mundo de Clubes de 2027, o Campeonato do Mundo Feminino de 2027, no Brasil, o Mundial de Futsal de 2028, no Qatar, e o Campeonato do Mundo de 2030, cuja organização será partilhada por Portugal, Espanha e Marrocos.
Segundo a UEFA, a entrada de investidores privados na propriedade das competições internacionais faria com que o futebol passasse a responder prioritariamente aos interesses dos accionistas, comprometendo a integridade e o legado histórico do Campeonato do Mundo.
A contestação ao projecto não se limita à Europa. A Confederação Norte, Centro-Americana e das Caraíbas de Futebol (CONCACAF) e a Confederação Asiática de Futebol (AFC) manifestaram igualmente reservas quanto ao facto de a proposta ter sido apresentada sem uma consulta prévia às 211 federações filiadas na FIFA. Já a Confederação Africana de Futebol (CAF) anunciou que irá reunir as suas associações-membro para analisar a iniciativa.
Infantino defende proposta
Gianni Infantino sustenta que a criação da FIFA Forward Enterprise (FFE) continua a ser apenas uma proposta e não uma decisão definitiva. O projecto prevê a constituição de uma empresa responsável pela exploração comercial dos Campeonatos do Mundo e do Mundial de Clubes, incluindo direitos televisivos, patrocínios, bilhética, licenciamento e organização de eventos.
Para entrar em vigor, a iniciativa necessita do apoio da maioria das 211 federações-membro e da aprovação das alterações estatutárias pelo Conselho da FIFA.
O presidente da FIFA rejeita as críticas e garante que a governação do futebol permanecerá nas mãos do organismo mundial, sem interferência dos investidores privados. Como exemplo dos benefícios do modelo, recorda que o programa FIFA Forward permitiu reforçar o apoio financeiro a países como Cabo Verde, Curaçau, Jordânia e Uzbequistão, contribuindo para a sua qualificação inédita para o Campeonato do Mundo.
Caso o projecto seja aprovado, a FIFA estima arrecadar cerca de 4,2 mil milhões de dólares através da venda de participações minoritárias na nova empresa. Segundo Infantino, a operação permitirá aumentar significativamente os fundos distribuídos às federações, elevando o apoio financeiro de oito para vinte milhões de dólares por cada associação entre 2027 e 2030.
Apesar dessas garantias, a oposição europeia considera que a abertura do capital da futura empresa representa um precedente perigoso e poderá alterar de forma irreversível o modelo de governação do futebol mundial.