Mangal destruído para produzir sal pode agora valer milhões em carbono – O País
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Mangal destruído para produzir sal pode agora valer milhões em carbono – O País

Durante anos, extensas áreas de mangal foram abatidas na comunidade de Jogó, província de Inhambane, para dar lugar à produção artesanal de sal. A iniciativa fracassou, mas deixou um legado que as comunidades ainda hoje enfrentam: redução da pesca, desaparecimento de espécies marinhas e degradação de um dos ecossistemas mais importantes da costa moçambicana. Agora, o mesmo mangal que foi encarado como um obstáculo ao desenvolvimento pode transformar-se numa oportunidade económica, com a província a reunir condições para beneficiar do mercado internacional de carbono.

Para muitas comunidades costeiras, o mangal continua a ser visto apenas como um conjunto de árvores sem utilidade aparente. Poucos conhecem a sua verdadeira função como berçário natural de peixes, camarão e outros recursos marinhos, além do papel que desempenha na protecção da linha costeira contra a erosão, na retenção de carbono e no equilíbrio dos ecossistemas.

Foi precisamente esse desconhecimento que levou ao corte de extensas áreas de mangal em Jogó. A vegetação foi removida para abrir espaço à produção artesanal de sal, numa actividade que acabou por não produzir os resultados esperados.

“A área foi devastada para produzir sal. Só que o sal nunca chegou a ser produzido porque a água aqui não era suficientemente salgada devido à proximidade do rio. Depois desistiram e deixaram tudo destruído”, recorda um membro do Conselho Comunitário de Pesca de Jogó.

O abandono da actividade não significou o fim dos prejuízos. Pelo contrário. A destruição do mangal alterou profundamente o ecossistema local, reduzindo a disponibilidade de pescado e afectando directamente o sustento de dezenas de famílias que dependem da pesca artesanal.

“Prejudicou-nos muito na produção do pescado. Até hoje praticamente deixámos de apanhar camarão por causa da devastação do mangal”, lamenta outro representante da comunidade.

Perante a degradação ambiental e a diminuição dos recursos pesqueiros, foram os próprios residentes que decidiram iniciar um processo de recuperação do ecossistema. Organizaram-se e começaram o repovoamento do mangal, na expectativa de devolver à costa a biodiversidade perdida e recuperar os níveis de pesca de outros tempos.

A esperança é que, com o crescimento das novas árvores, regressem também os mariscos, os peixes e o camarão que durante décadas garantiram alimento e rendimento às famílias da região.

Mas a recuperação do mangal pode representar muito mais do que o renascimento da actividade pesqueira.

A União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN) considera que Inhambane possui condições favoráveis para integrar o mercado internacional de carbono, um mecanismo que remunera países e comunidades pela conservação de ecossistemas capazes de capturar e armazenar dióxido de carbono, contribuindo para o combate às mudanças climáticas.

Contudo, a organização alerta que a entrada neste mercado exige regras claras e mecanismos capazes de garantir que os benefícios cheguem efectivamente às comunidades que protegem estes ecossistemas.

“Precisamos de dispositivos legais que salvaguardem os interesses do país, mas sobretudo das comunidades. É um mercado novo, com novos actores, e é fundamental assegurar que os benefícios da conservação sejam devidamente protegidos”, defende Domingos Gove, da IUCN Moçambique.

Segundo o responsável, os trabalhos de recuperação do mangal em Jogó já fazem parte do processo técnico necessário para que estes ecossistemas possam, no futuro, integrar iniciativas ligadas ao mercado de carbono.

As autoridades provinciais afirmam, por sua vez, que mais de 500 hectares de mangal anteriormente destruídos, grande parte pela acção humana, já foram recuperados em diferentes pontos da província. Ainda assim, reconhecem que o maior desafio continua a ser sensibilizar as comunidades para o valor económico e ambiental deste ecossistema.

A história de Jogó demonstra que o custo da destruição do mangal vai muito além da perda de árvores. Significa menos peixe, menos rendimento para as famílias e maior vulnerabilidade da costa aos efeitos das alterações climáticas. Ao mesmo tempo, mostra que a recuperação destes ecossistemas pode abrir caminho para uma nova economia assente na conservação da natureza, onde proteger o mangal deixa de ser apenas uma obrigação ambiental para se tornar também uma oportunidade de desenvolvimento.

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