A gramática do desgaste em Sem Máscara: O Itinerário de um Sonhador – O País
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A gramática do desgaste em Sem Máscara: O Itinerário de um Sonhador – O País

A estrutura social moçambicana ergue-se, frequentemente, sobre um equívoco trágico, que é, a convicção de que a dignidade de um indivíduo é directamente proporcional à sua capacidade de autonegação. Vivemos num ecossistema onde as feridas sociais não são tratadas, mas antes camufladas por um acordo tácito de normalidade que exige de cada indivíduo uma postura de monumento.

Esta necessidade patológica de satisfazer o olhar alheio converteu a existência num exercício de contabilidade estética, onde o “ser” foi substituído pelo “parecer”. É precisamente nessa intersecção entre o que a sociedade impõe e o que a alma suporta que, Euclides dos Santos situa a sua obra Sem Máscara: O Itinerário de um Sonhador.  

 Este embate entre a integridade do indivíduo e as normas implícitas que moldam a existência materializa-se, de forma pungente, no conto O Parlamento da Esquina – O peso que os homens carregam, onde a “máscara” deixa de ser um acessório para se tornar uma extensão da própria face.

O autor utiliza um cenário banal do quotidiano moçambicano, uma esquina, como refúgio de sociabilidade masculina, onde, entre piadas e um copo de cerveja bem gelada, se discute o destino da nação: planos políticos, económicos e até estratégias de futebol, com a autoridade de quem ostenta “títulos em Harvard Business School”.

No entanto, Euclides dos Santos subverte essa aparente leveza ao legitimar que este espaço é, simultaneamente, um lugar de desabafo e de afirmação da sobrevivência, convencionado como “nossa mítica esquina”, onde a erudição improvisada funciona como anteparo para uma realidade em que os homens são peritos em ler o mundo, mas analfabetos na leitura das suas próprias dores. A narrativa interpela o leitor com as distorções de uma masculinidade que se vê compelida a comprar respeito através da aparência, culminando no diagnóstico de um corpo em desgaste.

“Já repararam que há cada vez mais jovens homens a sofrerem trombose, AVC, tensão alta, mesmo antes dos 40?” Mais do que um recurso retórico, o autor assume uma postura de clarividência, mapeando as engrenagens de uma sociedade que asfixia os seus filhos com exigências prematuras, desde a pressa de casar ao endividamento para sustentar um carro de luxo que não podem manter, desta forma, empurrando-os para uma solidão onde “ninguém se pergunta como está o seu coração”, enquanto se consolida a ideia de que: “Homem não chora… homem luta!” (Mélio Tinga, in Névoa na Sala).  Outrossim, essa mesma sociedade que conduz o homem ao abismo do prestígio vazio e do “casamento infeliz, só para salvar a aparência” é a primeira a apontar o dedo ao menor sinal de falha.

É, no entanto, neste ponto que a obra enfrenta um dos seus principais desafios estruturais. Ao construir uma cena em que as perguntas surgem em cadência quase impositiva, sendo depois respondidas pela mesma voz que as formula, o texto inclina-se para uma orientação mais directa da leitura. A concordância dos interlocutores, que reconhecem não ter pensado naquelas questões sob tal perspectiva, acentua esse efeito. Portanto, ao antecipar respostas que poderiam emergir do próprio leitor, a narrativa reduz, ainda que de modo subtil, o espaço de interpretação autónoma.

Ainda assim, mesmo quando o texto parece caminhar sob orientação, tal facto não o torna mais leve; antes, coloca-o diante de algo que já não pode ser deslocado para fora da vida comum, pois é no interior do quotidiano que tal realidade se repete. Ao situar o desfecho num final de tarde de 04 de Outubro, o autor propõe que a verdadeira paz não se inscreve no feriado nacional, mas no momento em que se rompe com a obrigação de resistir para, enfim, existir.

Por conseguinte, a obra leva-nos a reconhecer a pressão como parte activa da vida social, onde a pacificação colectiva permanece incompleta enquanto o indivíduo continuar a negociar a sua própria essência em nome de um prestígio que, no limite, o consome. Deste modo, a questão deixa de ser apenas o que se perde nesse processo, passando também a pôr em causa a forma como a vida pode ser pensada para além dessas imposições, como lembra George Bernard Shaw: “A vida não se trata de encontrar a si mesmo. A vida é sobre criar a si mesmo”.

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